Para não ficar só mimimi sentimental vou postar uma história que me ocorreu na volta da faculdade para a casa estes dias.
É longo, mas prometo que não é (muito) chato e flui rápido.
Se alguém chegar a ver isso e pular devido ao tamanho... ok! Thats how internet works. No hard feelings ;)
A BATALHA ESTAVA PERDIDA
A Batalha estava perdida, não havia mais chance de êxito. O inimigo
possuía combatentes mais numerosos, domínio do terreno superior e
generais igualmente valorosos.
Ao constatar o que era evidente, ao aceitar o óbvio, um soldado deixou
cair sua espada. O som do metal tocando o chão soou mais alto que os
gritos de esforço e cólera provenientes de nenhuma e todas as direçōes.
O bravo soldado não precisou divagar muito para visitar a memória de sua
esposa e filha, pois tais pensamentos haviam estado com ele o tempo
todo.
A batalha estava perdida.
Era habilidoso, viril e voraz. Certamente conseguiria levar mais uma dezena de homens antes de tombar.
Mas a batalha estava perdida. Porquê privar outros de suas esposas e
filhas, se a batalha estava perdida? Homens cujo único aspecto em que
diferiam dele era a cor de seu estandarte?
A mão que carregava o escudo afrouxou, e logo ele caminhava por dentre a
carnificina, indiferente ao perigo, resignado à sina que erguia-se
implacável a seguir.
Poderia fugir, mas seria igualmente executado pelos seus, sabia disso.
Vagou por entre os ferozes embates, portando agora apenas profunda decepção e tristeza.
Ajoelhou-se e começou a orar.
Não chamou por deus nenhum, mas por seus avós, há muito perdidos.
Alguns soldados se rendiam à visão daquele homem simples, quebrado,
corajoso e miserável, de olhos cerrados e mãos unidas em um gesto quase
infantil. Estes eram impiedosamente assaltados por seus rivais em
investidas certeiras.
A velocidade com que a visão contagiava os exércitos se tornou, então, maior do que o caminhar da matança.
Dentro de instantes o imenso campo de batalha estava sendo percorrido pela atitude de um só.
Muitos nem sequer sabiam o porque abaixavam suas lâminas, no entanto faziam-no, nunca as quiseram brandir, de fato.
Enquanto aquele que parou a guerra ainda esperava, cego, o golpe final, a batalha cessou completamente.
Eis que então, ainda alheio ao que havia causado, abriu os olhos. E sorriu.
Viu homens sangrentos, confusos, amedrontados, indecisos. Era como se
tivessem entendido a inutilidade da violência, e não sabiam reagir. De
fato, nunca foram ensinados. Sorriu.
Alguns segundos mais tarde, uma lança desesperada e covarde trespassou o
soldado que orava, fazendo-o expelir seus sentimentos vermelhos, que
mancharam a grama e a memória.
A lenta queda de seu corpo, inerte, prestes a se tornar vazio sucedeu o furor da guerra, que acendeu e ascendeu novamente, resoluto, traidor.
Ao final daquela tarde a escuridão veio ocultar a monstruosidade que jazia disforme sobre a terra.
Pilhas de membros se projetavam gastos, inúteis. Troncos e ossos
vermelhos aglomeravam-se uns sobre os outros compondo um único e imenso ser morto.
Os corpos eram idênticos
em suas eternas expressōes de dor.
Exceto um, que sorria.